Mais do que saber utilizar a tecnologia, administradores precisam garantir que as decisões tomadas por sistemas inteligentes sejam éticas, auditáveis, transparentes e alinhadas aos objetivos organizacionais. O desafio está em supervisionar máquinas que aprendem sozinhas, tomam decisões complexas e podem reproduzir (ou até ampliar) vieses humanos.
A responsabilidade do administrador sobre decisões automatizadas
Embora algoritmos possam executar tarefas com grande eficiência, a responsabilidade final pelas consequências de suas decisões ainda recai sobre os gestores humanos. A governança algorítmica, nesse contexto, torna-se uma extensão da governança corporativa tradicional, exigindo novos protocolos de supervisão.
Administradores devem atuar como garantidores do bom uso da IA, monitorando seus resultados, compreendendo suas limitações e intervindo quando necessário. Isso implica revisar processos de tomada de decisão automatizada, compreender o funcionamento (ou o nível de opacidade) dos algoritmos utilizados e garantir que existam mecanismos de contestação por parte de clientes, usuários ou empregados.
Riscos legais e reputacionais dos algoritmos
Um algoritmo mal calibrado pode gerar grandes prejuízos — não apenas financeiros, mas também jurídicos e reputacionais. Empresas que utilizam IA para análise de crédito, por exemplo, podem ser responsabilizadas caso seus modelos discriminem candidatos com base em dados indiretos como endereço, gênero ou etnia.
No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) já prevê o direito à revisão de decisões automatizadas. Em países como os Estados Unidos e membros da União Europeia, regulações adicionais têm sido implementadas para obrigar empresas a explicarem como suas IAs funcionam e a garantirem equidade nos resultados.
Casos emblemáticos, como o da Amazon, que teve de descontinuar um sistema de recrutamento que discriminava candidatas mulheres, mostram que o risco é real. Por isso, os administradores devem garantir auditorias frequentes nos algoritmos, com apoio de times multidisciplinares, incluindo especialistas em dados, ética e jurídico.
Transparência e ética na era da IA
A complexidade técnica dos algoritmos não pode ser uma justificativa para falta de transparência. Ainda que modelos de IA, como as redes neurais profundas, sejam difíceis de interpretar (fenômeno conhecido como “caixa-preta”), os administradores devem buscar ferramentas de interpretabilidade e investir em governança ética.
Entre os princípios que devem nortear a atuação com IA, destacam-se:
Explicabilidade: capacidade de justificar, em termos compreensíveis, como o algoritmo chegou a determinada conclusão.
Não discriminação: garantir que o sistema não reproduza ou amplifique preconceitos históricos.
Responsabilidade: atribuir claramente quem responde por erros ou desvios do sistema.
Segurança: proteger os sistemas contra manipulação e ataques externos.
Privacidade: assegurar que dados sensíveis não sejam utilizados de forma indevida.
Estes valores não apenas protegem a organização de riscos, mas também agregam valor à marca, mostrando compromisso com a justiça e a inovação responsável.
Como estruturar políticas internas para supervisão tecnológica
A supervisão da inteligência artificial deve ser institucionalizada dentro das empresas. Para isso, é necessário criar políticas internas específicas para governança algorítmica. Essas políticas devem contemplar:
Códigos de conduta para uso de IA
Comitês de ética e tecnologia
Mapeamento de riscos associados a decisões automatizadas
Planos de resposta a incidentes envolvendo IA
Auditorias periódicas e independentes dos algoritmos
Capacitação contínua de administradores e lideranças
Além disso, é essencial que essas diretrizes estejam alinhadas com os objetivos estratégicos da organização e que contem com a adesão da alta liderança. A governança algorítmica não pode ser delegada apenas ao time técnico; é uma agenda executiva.
O administrador como guardião da governança digital
Em 2026, o papel do administrador se transforma. Ele deixa de ser apenas um gestor de recursos humanos, financeiros ou operacionais e passa a ser um guardião da governança digital. Isso significa:
Integrar IA ao planejamento estratégico da organização de forma segura.
Promover a interdisciplinaridade, reunindo profissionais de dados, jurídico, marketing e ética.
Estabelecer métricas de sucesso que vão além do desempenho técnico da IA, incluindo impacto social, inclusão e reputação.
Estar atento às regulamentações nacionais e internacionais sobre o uso ético da tecnologia.
Desenvolver cultura organizacional orientada à responsabilidade digital.
Empresas que negligenciam esses aspectos correm o risco de transformar inovação em passivo — seja por decisões injustas, seja por processos judiciais ou crises de imagem.
IA e administração: uma relação que exige vigilância
O uso de inteligência artificial nas empresas já não é mais opcional, mas a forma como ela é governada faz toda a diferença. Segundo a consultoria PwC, a IA pode adicionar até 14 trilhões de dólares ao PIB global até 2030. No entanto, o mesmo estudo alerta: sem supervisão adequada, os benefícios podem ser anulados por desconfiança, falhas e escândalos éticos.
Na Baixada Santista e em outras regiões em transformação digital, administradores têm o desafio de construir ambientes onde a tecnologia trabalha a favor das pessoas — e não o contrário. Para isso, é preciso investir não apenas em ferramentas, mas em processos, cultura e princípios.
Conclusão
A governança algorítmica é, acima de tudo, uma responsabilidade humana. Administradores que liderarem esse movimento estarão preparados para o futuro do trabalho, da ética empresarial e da inovação sustentável.
Supervisionar decisões tomadas por máquinas exige conhecimento técnico, sensibilidade ética e visão estratégica. E essa é justamente a nova fronteira da administração: garantir que a tecnologia evolua sem perder de vista o que mais importa — as pessoas.
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