A complexidade está justamente na sobreposição de papéis familiares e empresariais, o que pode comprometer a tomada de decisão, o planejamento estratégico e a continuidade da organização.
Administrar uma empresa familiar exige mais do que conhecimento técnico em gestão. É necessário alinhar emoções, interesses, gerações e, ao mesmo tempo, manter a competitividade no mercado. Por isso, estratégias bem definidas para sucessão, resolução de conflitos e inovação são essenciais para garantir a perenidade do negócio.
A importância do planejamento sucessório
Um dos maiores desafios das empresas familiares é a sucessão. De acordo com o Sebrae, apenas 30% das empresas familiares no Brasil chegam à segunda geração e menos de 10% à terceira. Isso acontece, em grande parte, pela ausência de um plano de sucessão estruturado.
O planejamento sucessório deve começar com antecedência, ser transparente e envolver tanto a geração atual quanto a futura. É fundamental definir critérios objetivos para a escolha do sucessor, que vão além do vínculo familiar. Formação, experiência, perfil de liderança e afinidade com os valores da empresa são fatores importantes.
Empresas que negligenciam esse processo correm o risco de enfrentar crises internas, perda de identidade, queda de desempenho e até fechamento. Um bom exemplo de planejamento sucessório bem-sucedido é o da Natura, que mesmo sendo uma empresa de capital aberto, manteve uma cultura organizacional sólida com líderes preparados e alinhados ao propósito da marca.
Gestão de conflitos em ambiente familiar
O ambiente empresarial já é, por natureza, suscetível a conflitos. Quando há laços familiares envolvidos, a intensidade desses conflitos tende a aumentar. Desentendimentos pessoais, rivalidade entre irmãos ou primos, decisões tomadas com base emocional e dificuldade em separar o papel de “pai” do papel de “presidente” são apenas alguns dos impasses comuns.
Para lidar com isso, a empresa deve estruturar um modelo de governança que estabeleça regras claras de atuação. A criação de um conselho de administração ou de família, com membros externos e imparciais, ajuda a trazer mais profissionalismo à gestão e facilitar a mediação de conflitos.
Outra ferramenta importante é o acordo de sócios ou protocolo familiar. Esse documento estabelece as diretrizes para participação de familiares no negócio, critérios para contratação, distribuição de lucros, tomada de decisões e resolução de impasses. Ele atua como um guia e previne disputas que podem colocar em risco a continuidade da empresa.
Cultura de inovação em empresas familiares
Muitas empresas familiares têm raízes tradicionais, o que pode ser positivo para preservar valores, mas também pode gerar resistência à inovação. Em um mundo onde a transformação digital é cada vez mais acelerada, manter-se competitivo exige abertura a novas ideias, tecnologias e modelos de negócio.
A inovação nas empresas familiares deve ser tratada como um processo contínuo e estratégico. Ela não se resume apenas a investir em tecnologia, mas também em desenvolver novas formas de pensar, se relacionar com o cliente e operar processos internos.
Um bom caminho é unir a experiência da geração fundadora com a visão moderna da nova geração. Jovens familiares que retornam de universidades ou vivências internacionais podem ser incentivados a trazer tendências de mercado e propor melhorias. O desafio está em criar um ambiente que valorize tanto a tradição quanto a renovação.
Além disso, programas de intraempreendedorismo, parcerias com startups, e investimento em qualificação profissional são estratégias que contribuem para criar uma cultura inovadora. Segundo o estudo da PwC “Global Family Business Survey”, empresas familiares que adotam a inovação como prioridade têm desempenho 42% superior em termos de crescimento a longo prazo.
Profissionalização da gestão
Uma das principais estratégias administrativas para empresas familiares é a profissionalização da gestão. Isso significa separar a estrutura de liderança da estrutura familiar, adotando práticas de mercado em áreas como finanças, marketing, recursos humanos e planejamento estratégico.
A contratação de profissionais externos qualificados para cargos-chave pode ajudar a trazer novas visões e melhorar a performance da organização. No entanto, essa transição deve ser feita com cuidado para que os valores da família não se percam. A governança deve garantir que as decisões sejam tomadas de forma técnica, mas em sintonia com o DNA da empresa.
Treinamentos, feedbacks estruturados e metas de desempenho são práticas que também precisam ser implementadas para que a cultura de meritocracia ganhe espaço, sem comprometer o ambiente familiar.
Comunicação e cultura organizacional
A comunicação é um dos pilares da boa administração em qualquer empresa, e nas empresas familiares ela tem um peso ainda maior. Informações mal interpretadas, decisões não compartilhadas ou rumores podem se espalhar rapidamente e gerar instabilidade emocional nos membros da família e nos demais empregados.
Manter uma comunicação clara, com canais oficiais, reuniões regulares e transparência na gestão ajuda a fortalecer a cultura organizacional e a confiança entre todos os envolvidos. Quando a empresa transmite uma imagem coerente e profissional, tanto para dentro quanto para fora, os resultados são refletidos na imagem de marca, atração de talentos e credibilidade com investidores.
Casos de sucesso e aprendizados
Existem diversos exemplos de empresas familiares que prosperaram ao adotar estratégias administrativas consistentes. A Havan, comandada por Luciano Hang, é uma delas. Com forte presença no varejo nacional, a empresa expandiu sua atuação mantendo o controle familiar, mas investindo fortemente em processos de gestão, tecnologia e marketing.
Outro exemplo é o Grupo J. Safra, que se consolidou como um dos principais conglomerados financeiros do país. Sua administração familiar segue princípios rígidos de governança e sucessão, o que permitiu atravessar diferentes gerações com solidez.
Esses casos mostram que é possível unir tradição e modernidade, desde que a administração seja encarada com profissionalismo, planejamento e visão de longo prazo.
Conclusão
Administrar uma empresa familiar é um desafio complexo, mas também uma grande oportunidade. Quando as estratégias de sucessão são bem definidas, os conflitos são tratados com maturidade e a inovação é incentivada, essas empresas têm tudo para se tornarem líderes em seus segmentos.
O segredo está em reconhecer que, apesar das particularidades do ambiente familiar, as boas práticas de gestão continuam sendo indispensáveis. Profissionalizar, planejar e inovar são ações que não apenas garantem a sobrevivência da empresa, mas também criam um legado sólido para as próximas gerações.
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