No entanto, com a transformação digital e a evolução das demandas do mercado, esse modelo está sendo cada vez mais questionado. Em seu lugar, surgem novas abordagens centradas nas competências reais dos candidatos, como portfólios digitais, testes práticos, entrevistas por habilidades e análise comportamental.
Essa mudança não é apenas estética ou superficial. Trata-se de uma transformação estrutural no modo como recrutadores avaliam talentos administrativos. A agilidade dos negócios, a integração entre áreas e o foco em resultados exigem profissionais com capacidade de adaptação, colaboração e tomada de decisão. E isso, muitas vezes, não está refletido em um papel ou PDF com histórico de empregos.
Por que o currículo tradicional está perdendo força
Um dos principais motivos para a queda de relevância do currículo tradicional é a desconexão entre o que está escrito e o que realmente importa na prática. Um estudo da Harvard Business School revelou que 61% dos empregadores acreditam que os currículos não fornecem informações suficientes para determinar a real capacidade de um candidato.
Além disso, ferramentas de triagem automática (ATS) acabam eliminando candidatos que poderiam ser valiosos apenas porque não utilizaram as palavras-chave certas. Isso gera um processo excludente e pouco eficaz. Em um cenário onde agilidade, inovação e flexibilidade são diferenciais competitivos, é natural que empresas comecem a buscar outras formas de avaliação.
A ascensão dos portfólios digitais administrativos
Embora mais comuns em áreas como design, marketing e tecnologia, os portfólios digitais começam a ganhar força também em funções administrativas. Profissionais têm usado ferramentas como Google Sites, Notion e LinkedIn para reunir documentos, projetos, apresentações, dashboards e cases que demonstram suas habilidades na prática.
Por exemplo, um administrador pode montar um portfólio com relatórios que criou, modelos de planejamento estratégico, registros de processos que otimizou ou indicadores que ajudou a melhorar. Isso oferece ao recrutador uma visão concreta da capacidade técnica e analítica do candidato, algo muito mais revelador do que uma lista de empregos anteriores.
Testes práticos: a prova do desempenho em tempo real
Outra tendência crescente no recrutamento administrativo são os testes práticos. Empresas pedem que o candidato resolva um problema real ou simulado, como elaborar um plano de corte de custos, propor uma reestruturação de processos, montar um orçamento ou interpretar dados financeiros.
Essa abordagem se baseia no princípio do “hire for skills, train for culture” (contrate pelas competências, treine pela cultura). A vantagem é clara: o recrutador consegue avaliar com objetividade como o profissional pensa, executa, toma decisões e lida com pressão.
De acordo com a Talent Board, organizações que adotam avaliações práticas têm 36% mais chances de contratar pessoas alinhadas ao cargo, reduzindo erros de contratação e melhorando a performance a médio prazo.
Análise comportamental: o fit cultural ganha protagonismo
Além das competências técnicas, o comportamento e a inteligência emocional são cada vez mais considerados nos processos seletivos. A pesquisa “Tendências Globais de Talento 2024”, do LinkedIn, apontou que 92% dos recrutadores consideram o comportamento e o alinhamento cultural mais importantes do que a formação formal.
Modelos como DISC, MBTI ou Big Five são usados para mapear o perfil comportamental do candidato. O objetivo é entender como ele age em equipe, lida com conflitos, responde a mudanças e se adapta a diferentes estilos de liderança. Isso ajuda a prever se o profissional terá sucesso não apenas em tarefas, mas também nas relações interpessoais dentro da empresa.
Entrevistas estruturadas por competências
Outro recurso moderno que vem substituindo a entrevista tradicional é a entrevista por competências. Nesse modelo, o foco está em exemplos concretos de como o candidato agiu em situações específicas do passado. Perguntas como “conte uma situação em que você precisou mediar um conflito entre áreas” ou “descreva uma decisão impopular que você teve que tomar” ajudam a revelar comportamentos reais, e não apenas intenções.
Essas entrevistas são guiadas por critérios claros e objetivos, o que reduz o viés do entrevistador e aumenta a precisão da escolha. Segundo a Society for Human Resource Management (SHRM), esse tipo de entrevista aumenta em até 50% a eficácia da contratação.
A tecnologia como aliada no recrutamento por habilidades
Ferramentas de inteligência artificial, machine learning e big data também têm papel crucial nesse novo cenário. Plataformas como Vervoe, TestGorilla e Gupy utilizam algoritmos para aplicar testes práticos e avaliar comportamentos com mais precisão e escala. Isso permite que as empresas avaliem centenas de candidatos sem depender exclusivamente de currículos ou entrevistas iniciais.
Além disso, o uso de dados na gestão de talentos permite entender quais características realmente estão associadas a bons resultados na organização e buscar profissionais com esse perfil. É uma abordagem preditiva que antecipa performance e reduz riscos.
Benefícios para candidatos e empresas
Para os candidatos, essa mudança representa uma oportunidade de se destacar não pelo histórico, mas pelo potencial. Pessoas que mudaram de carreira, têm pouca experiência formal ou estão retornando ao mercado encontram mais espaço quando a competência prática é valorizada.
Para as empresas, o ganho é estratégico. Elas passam a contar com profissionais mais alinhados ao desafio do cargo, que entregam mais valor desde os primeiros meses. Além disso, reduzem o turnover e os custos com desligamentos e novas contratações.
Como os profissionais podem se preparar para essa nova realidade
Monte um portfólio digital: reúna materiais, projetos, relatórios e tudo que comprove suas habilidades. Mesmo em áreas administrativas, isso é possível e valorizado.
Desenvolva habilidades práticas: cursos, voluntariados e desafios simulados ajudam a adquirir experiência real, mesmo fora de um cargo formal.
Conheça seu perfil comportamental: faça testes confiáveis e entenda seus pontos fortes e áreas de desenvolvimento.
Pratique entrevistas por competência: prepare-se com exemplos reais e treine respostas claras e estruturadas.
Esteja presente no digital: mantenha seu LinkedIn atualizado, produza conteúdo sobre sua área e participe de grupos de discussão.
Conclusão
O fim do currículo tradicional não significa o fim da avaliação de competências. Ao contrário: estamos vivendo um momento em que o “papel” está dando lugar à prática, ao comportamento e à entrega real de valor. Administradores que desejam se destacar nesse novo cenário precisam ir além da descrição de cargos — e começar a mostrar, de forma concreta, o que sabem fazer.
Esse novo modelo beneficia empresas mais modernas e eficientes, mas também favorece profissionais preparados, versáteis e com desejo de se reinventar. É o início de uma era onde o que você faz, de fato, vale mais do que o que está no seu currículo.
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